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O Batom

  • Sábado à noite, me vestia para um recital de música clássica onde meu tio se apresentaria... vestida em um preto tomara que caia, scarpin pretos impecáveis senti , porém que faltava algo, decerto maquiagem pois a ocasião exigia , me maquiei e então saquei da bolsa uma arma fatal:o batom, passei pela boca e fiquei alguns minutos a admirar aquele artigo tão fascinante , que consegue tornar
    nós mulheres tão femininas. 

    O que será que há no batom que faz com que mesmo uma mulher apática diante de outras formas de maquiagem fique tão apaixonada por ele? Pois bem, acho que por um motivo:

    o batom é fácil - com um mínimo de esforço, conseguimos um máximo de impacto. Fica ótimo num rosto lavado, e não há dúvida quanto ao local que se deve aplicá-lo. 

    Entretanto, a atração pelo batom é mais profunda do que a facilidade e a satisfação da aplicação do próprio. O batom é um cosmético que contém uma energia psicológica poderosa - passá-lo nos lábios pode transformar seu humor. 

    Tanto que em sua autobiografia, ´´My life for beauty´´, Helena Rubinstein se refere a um caso extremo. Ela conta a história de uma mulher que foi retirada de um prédio totalmente bombardeado em Londres. Durante as buscas ela estava gravemente ferida, mas, antes de consentir em tomar qualquer remédio, pediu que lhe dessem o seu batom, explicando: ´´Ele faz algo por mim´´ 

    No decorrer de 2 mil anos, a finalidade primordial do batom tem sido a de realçar a aparência da usuária. Em nossa sociedade, o batom só é usado pelas mulheres (embora não tivesse sido sempre assim; como o salto alto, o batom vez por outra foi um acessório unissex) e por isso propicia certas associações sexuais. Embora os bebês e as crianças dos dois sexos tenha em geral, lábios bastante cheios e intensamente pigmentados,as mudanças hormonais fazem com que essa semelhança acabe na puberdade, quando os lábios dos meninos afinam e os das meninas se encurvam e se intumescem. Os sexos se atraem mutuamente ao enfatizar o que os torna diferentes,motivo pelo qual os homens cultivam os músculos e as mulheres usam blusas decotadas. Ao escurecer os lábios, a mulher faz com que eles pareçam até mais sensuais do que já são, muitas vezes, um pouco pertubadores, porque confundem nossas idéias sobre sexualidade. 

    o lábio cheio,rosado,é também sinal de juventude e capacidade de gerar filhos. À medida que as mulheres envelhecem, os lábios tendem a afinar e a perder um pouco da cor. O batom pode ser interpretado como uma tentativa de se parecer fresca e sempre madura. 

    Mais explicitamente, Diane Ackermann, autora de ´´A natural history of senses´´,conta-nos que´´(...)os lábios da boca nos fazem lembrar dos lábios genitais vermelhos,quando incham e se excitam, esse é o motivo,consciente ou subconsciente,para as mulheres sempre quererem que eles parecessem até mais vermelhos com o batom´ 

    Sugestões sexuais á parte,o uso do batom vermelho traz uma certa responsabilidade. È uma cor que exige vigilância e manutenção constantes –nada pior do que batom vermelho desbotado ou borrado.Não se pode ser descuidada com uma boca escarlate.Se você vai pintar os lábios de vermelho,eles vão ser o centro das atenções,então é melhor você ter algo a dizer.As duas mais famosas representantes da boca carmesim foram Coco Chanel e Diana Vreeland, e nenhuma das duas ficava sem palavras. Talvez só fato de você saber que está usando vermelho lhe propicie ousadia.´´Me dá confiança.É tão agressivo,você tem de acompanhar´´, relatou uma mulher de lábios vermelhos sobre o batom de sua preferência, para a Vogue de Agosto de 1994. 

    Na outra ponta da escala dos batons , temos o rosa como uma versão menos intensa do vermelho – a feminilidade menos a excitação,a cor tradicionalmente designada para mulheres infantis.Segundo a revista Harper´s Bazaar,s homens gostam que suas namoradas usem vermelho, mas preferem que suas esposas usem rosa. 

    No século XIX, quando qualquer tipo de maquiagem era tabu, as mulheres que usassem batom eram consideradas sexualmente disponíveis. A maquiagem, mesmo quando se torna em geral aceita, contém muitas nuanças simbólicas sutis. Uma mulher com a boca carmesim era uma sereia; a que escolhia um batom mais claro, de um rosa mais discreto, era uma boa moça. 

    Ao contrário do que acontecia antigamente, hoje em dia não há ninguém que considere o batom um símbolo de imoralidade; diante de starlets como Britney Spears, por exemplo, fazendo um strip-tease, numa simulação de nudez, na televisão nacional, acabamos ficando relativamente blasés em relação á maquiagem. Ninguém piscou um olho sequer quando M.A.C chamou Ru Paul e K.D lang (uma drag queen e uma lésbica respectivamente)para posar para anúncios do batom Viva Glam,cujos rendimentos foram para o M.A.C Aids Fund.Mas quase sempre, desde que as mulheres começaram a pintar lábios e rostos, os moralistas encontraram algo com que se escandalizar. A maioria das vezes, a queixa se concentrava na idéia de um ´´rosto falso´´, criado pelo batom e por outros cosméticos. Em alguns casos, o resultado era considerado uma ofensa a Deus. 

    Os primeiros cristãos, que viviam entre os romanos-estes últimos, loucos por uma maquiagem-, desdenhavam qualquer sinal de cor artificial por considerá-la pecado.Mas, no decorrer da história, a queixa mais comum em relação ao batom-na verdade, a qualquer cosmético- era a de que ele criava uma fatura falsa.Os homens que se casavam com mulheres que lhes pareciam ter os lábios róseos e as faces orvalhadas ficavam indignados quando se revelava o artifício por trás da beleza´´natural´´ de suas esposas. 

    Desse modo, torna–se inegável dizer que os cosméticos vão e vem, mas o batom é perene. E a explicação para isso são as associações ligadas á feminilidade que esse cosmético enigmático desperta. O batom é a feminilidade num tubo, acondicionada e codificada em cores. Assim, o fascínio dele é irresistível – mesmo mulheres que raramente o usam parecem hipnotizadas diante de uma vitrine de batons. No momento em que me preparava para o recital, pude perceber como passar um batom é uma experiência sensual completa, desde o momento gasto na prazerosa contemplação da cor até a carícia íntima de fazê-lo deslizar nos nossos lábios. O perfume dele me evoca lembranças, enquanto que a cor do batom me faz lembrar de toda uma era. 

    Com esse tipo de poder por trás dele, quem pode resistir a uma boca coberta de batom? 

    Revista Harper´s Bazaar 1946
    Ackerman, Diane.´´A natural history of senses´´.
    Revista Vogue,agosto de 1994
    Rubinstein,Helena,´´My life for beauty´´


       


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